O Caso Kony:

um novo paradigma do poder da comunicação? – Volume I*

* dada a extensão da análise, o tema será abordado em vários volumes


Um dos princípios basilares que tenho presente, quando penso em comunicação informativa, baseia-se na ideia de que transmitir a alguém uma informação que já conhece, não serve qualquer propósito. Compreendam por isso que não irei perder tempo explicitando em que consiste a “operação” Kony2012. Assumindo que nenhum de vocês se encontrou num estado comatoso durante este último mês, já todos devem saber quem é Joseph Kony. E, se conhecem Joseph Kony, é por certo sinal que se depararam, direta ou indiretamente, com a campanha que o tornou famoso.
O facto do primeiro parágrafo não se dedicar à apresentação do tema que irá ser tratado, é por si só, uma enorme prova – quiçá a maior – da estrondosa eficácia e alcance, deste evento comunicacional. Não obstante, será prudente apresentar alguns dados que tornam evidente o impacto de que vos falo: o vídeo obteve 80 milhões de visualizações (!) após uma semana na web (!!!!); foi referido milhões de vezes na blogosfera e redes sociais; conseguiu destaque nos principais “media” mundiais – chegou mesmo a alcançar a capa da revista Time; “and last but not the least”, a campanha conseguiu tocar o poder político norte-americano – cerca de 37 congressistas apresentaram uma resolução no sentido de reunir esforços para capturar Kony e até o presidente Barack Obama elogiou a iniciativa.
Não será, no entanto, a primeira vez que determinado tema consegue amplo destaque nas diversas agendas e a uma escala global, pelo que se devem estar a perguntar “fará efetivamente sentido apresentar este fenómeno como exemplo de um novo paradigma?”. Face a essa dúvida apresento-vos duas particularidades que entendo tornarem esta situação num verdadeiro “case study”, esperando que delas, possam derivar as vossas próprias respostas. 
Em primeiro lugar não estamos perante qualquer acontecimento – no sentido de algo que aconteceu, que rompeu com a normalidade, e que produziu, por isso, impacto mediático – nem sequer perante um tema actual – a infeliz realidade que o vídeo nos traz persiste há vários anos. Como tal verifica-se uma marcada diferença relativamente ao efeito atualidade, que normalmente se aplica tanto à agenda mediática, como à agenda do público. O que significa que todo este frenesim terá sido, de certa forma, forçado, provocado intencionalmente por alguém. E é precisamente a identidade desse alguém que nos conduz à segunda grande novidade introduzida por este fenómeno: uma bizarra e imprevista relação de forças. Não só todo este impacto foi forçado, como foi forçado por um ator com pouca dimensão e poder - nem que em termos relativos. 
A organização Invisible Children estava longe de ser um grande jogador no jogo de influências à escala mundial, aquando do lançamento do seu vídeo viral. Arrisco mesmo especular que, caso a origem de toda esta febre à volta de Kony nunca tivesse sido identificada, e se fizessem apostas acerca da identidade do responsável, não seria colocada uma única ficha na casa desta organização. Pelo simples facto de não possuir poder suficiente para influenciar, quer os media, quer os políticos.
Mas a verdade é que, embora totalmente imprevisto à partida, esta organização conseguiu influenciar ambos. Como? Chegando antes, e de forma direta, a milhões de pessoas. E aqui reside o cerne deste fenómeno. Um homem – Jason Russel, grande mentor do vídeo – considerou que a melhor forma de atingir o seu objetivo – o qual não irei especificar já que poderá ser variável consoante a visão otimista ou desconfiada do leitor – seria elaborar um vídeo, com a preocupação de o tornar viral – abordaremos esta questão mais ao pormenor num próximo capítulo – e divulgá-lo posteriormente através das redes sociais, partindo da base de seguidores da Invisible Children.
E independentemente do objetivo de Jason Russell, os resultados obtidos pelos seus métodos não podem ser ignorados. O responsável pela iniciativa levou a cabo a proeza de informar milhões de pessoas acerca de uma realidade que, embora na prática – e infelizmente – pertencesse a um passado que se prolonga, constituiu uma completa novidade para a grande maioria dos recetores da sua mensagem. Desta leitura podem-se retirar importantes conclusões – talvez até, e não menos importante, desmistificar preconceitos do imaginário jornalístico atual.
Podemos começar por classificar como falsa a ideia – muitas vezes repetida num passado recente como forma de justificar a crise em que se encontra mergulhado o jornalismo – de que as pessoas revelam uma tendência decrescente em termos de disponibilidade ou predisposição para serem informadas. Se tivermos em conta que o vídeo é relativamente longo – cerca de 30 minutos –, quando enquadrado nos hábitos de consumo de informação instantânea da sociedade atual, será aceitável considerar que, neste caso concreto, a disponibilidade dos recetores para serem informados foi significativa. Assim sendo, podemos, a partir deste ponto, conjeturar que os canais mediáticos atuais não estão devidamente adequados ao público. Parecem principalmente ineficazes – quem sabe unicamente – em despertar aquele “clique” – pelo menos com a abrangência que o vídeo conseguiu – que, em qualquer relação, tem o condão de fazer com que nos queiram conhecer melhor.
O que podemos certamente concluir é que os media em geral falharam redonda e globalmente na tarefa de informar o público em relação à situação da guerra do Uganda e às suas particulares perversidades. Com a agravante de, pelos vistos, se tratar de um tema em relação ao qual o público poderia manifestar interesse. No "pré vídeo viral", Joseph Kony não era famoso, as crianças-soldado não eram vítimas, e a África profunda não era um inferno tão percetível. É possível – e provável – que a generalidade dos órgãos informativos tenha até proporcionado, ao longo do tempo, mais informação sobre este tema do que o próprio vídeo-fenómeno, informação tratada de forma mais profissional, mais responsável, e mais detalhada. No entanto, essa informação passou despercebida, e se passou despercebida…não informou de facto.
Este contraste de sucesso efetivo, entre a “febre” Kony2012  e a cobertura mediática prévia da situação do Uganda, coloca-nos perante uma questão muito sensível: Deve o jornalismo realizar o mesmo trabalho que Jason Russell realizou? No meu entender a resposta é clara, e é um redondo não. Porque as funções e responsabilidades do Jornalismo são diferentes das de uma associação como a Invisible Children ou de um indivíduo como Jason Russell. De qualquer maneira, irei justificar mais aprofundadamente  a rejeição de um eventual mimetismo relativo às técnicas da operação Kony2012 quando, nos próximos volumes desta análise, me debruçar sobre algumas explicações para o sucesso desse vídeo e os perigos daí decorrentes.
Tal não significa - muito pelo contrário - que o jornalismo não deva aproveitar - e beber bastante – muita da essência que Jason Russell veio trazer para o universo da comunicação. Principalmente porque conseguiu transmitir às pessoas a mensagem "ouçam! o que vos estou a dizer interessa-vos e é importante!". E é precisamente neste aspecto que o Jornalismo dos dia de hoje mais tem falhado. 
Todavia, é imperativo que se saiba realizar as necessárias adaptações para que o produto jornalístico final não implique riscos para o consumidor, não se torne num possível ativo tóxico – na informação, como na economia, as consequências podem ser catastróficas.
Depois de analisado o evento em si, importa agora concretizar o que quero dizer quando falo de um novo paradigma. Ignorando eventuais considerações sobre custos e benefícios deste novo fenómeno, a iniciativa de Jason Russell, com os imensos efeitos que obteve, pode constituir o primeiro grande exemplo do que denomino de “Step-by-step lobbying” e “single-pressure effect”: os efeitos comunicacionais que permitem a uma(single) entidade  mesmo que uma só pessoa – pressionar(pressure) e moldar o sistema mediático, através de um processo de influência(lobbying) progressiva, degrau a degrau(step-by-step), partindo da influência direta sobre um grupo de pessoas, que por sua vez influencia, sucessivamente, outros grupos, até que a “massa” influenciada se torne significativa o suficiente para forçar os media a dar cobertura à temática – significativa até para captar, caso deseje, a atenção do poder político.
Todavia, percebe-se que embora estes fenómenos signifiquem que a intenção de atingir o panorama mediático e político possa partir do desejo e consequente ação de um indivíduo, a chave encontra-se na força massiva da população em geral. Por essa razão, entendo esta hipótese teórica como o paradigma do “people´s choice”.
Significaria este paradigma que, ao contrário do que se teorizou no passado, são as pessoas(people) que pressionam os media, que exigem que estes tratem determinado assunto, porque, global e massivamente, se relacionam vincadamente com ele. O universo mediático representaria portanto uma extensão das vontades, preocupações, e pressões do público, não constituindo um poder em si, antes uma manifestação de poder popular. 
E apresentada a possibilidade teórica, resta-me deixar a interrogação: estaremos nós na iminência de uma democracia da informação?

0 comentários:

Enviar um comentário